Wednesday, October 04, 2006

Mais um Presentinho

Ontem a RTP1 presenteou-me com um programa do qual gostei bastante. Uma entrevista a Maria Filomena Mónica. Adorei ouvi-la e vê-la falar sobre a nossa sociedade em geral, sobre os portugueses, sobre a educação e achei deliciosa a sua constante referência a Eça de Queirós; grande autor que soube reproduzir lindamente, nas suas obras, a sociedade portuguesa da época... e a actual!!
Como estou um pouco saturada de falar sobre o estado da Educação do nosso país. Vou, apenas, sobressair uma ideia, da qual especialmente gostei (no seu discurso), que retrata a nossa sociedade, referindo o Zé Povinho, figura criada por Rafael Bordalo Pinheiro.
Sinceramente também eu nunca gostei do Zé Povinho, sempre o achei um mal-criadão de primeira.
Mas, ontem, Maria Filomena expôs bem a situação. De facto, segundo afirmou, os portugueses são medrosos, têm medo de serem diferentes, têm medo de se expor, nomeadamente, receiam enfrentar as autoridades, a justiça. Podem fazer as maiores aldrabices e os ditos manguitos por trás, mas pela frente do patrão, dum polícia, ou de qualquer entidade hierarquicamente superior, acabam por abanar a cabeça e concordar. Concordar, mesmo sabendo que estão certos, numa atitude de subserviência. Mas mal o outro vira costas... pimba...leva com manguito! (e sabe-se lá mais o quê)

Quando perguntaram a Eça a razão pela qual as suas personagens no seu exterior eram todos parecidos, ele respondeu referindo, que a sociedade portuguesa é assim, os portugueses nos seus actos, nas suas atitudes exteriores para com a sociedade são todos iguais. Acho que esta afirmação é de uma actualidade assustadora.

Dentro da mesma perspectiva e, agora, reportando à minha vivência com os outros, um facto que tenho observado é que os portugueses gostam de se afirmar como sendo os aldrabões, os pintarolas, os "chicos-espertos" que enganam toda a gente. É comum ouvir coisas como: "Ah! E eu até enganei o meu patrão", "Eu até tenho net à borla à custa do meu vizinho", "Se ele não paga o condomínio, eu também não pago", "Eu vou fazer uma aldrabice para não pagar."


Onde vamos parar? Que sociedade estamos a criar? Vamos ser eternamente a sociedade dos Zé Povinhos? Vamos andar a fazer manguitos nas costas dos outros eternamente?

10 comments:

Pelicano said...

Por acaso também já tinha pensado nisto. É impressionante a actualidade dos Maias.

Emilia said...

Num comentário anterior esqueci-me de mencionar que tb gosto muito deste blog pela oportunidade das observações.
Mais um bjinho

FL said...

Pensemos no futebol. Qual a especialidade dos jogadores portugueses? Não é a técnica de passe e remate, a força física ou velocidade, é a finta! A aldrabice e o chi espertismo são as reviengas deste país.

joão ferreira dias said...

perguntas pertinentes num bom blogue.

Bem Visto said...

É esperar que isto melhore mais nos próximos 120 anos do que melhorou nos últimos...:-)

Blondie said...

Pelicano:
É verdade! Não só Os Maias, praticamente todas as obras do Eça.

Emília:
Obrigada! É tudo reflexo do que me vai passando pela cabeça. :)


Fl:
Nunca tinha pensado nisso... também não percebo nada de futebol. Daí a minha ignorância sobre as características dos jogadores. Já não bastava haver esse reflexo nos dirigentes e também o há nos jogadores.
Obrigada pelo apontamento!

João Ferreira Dias:
Benvindo!!
Obrigada! É verdade são perguntas que eu já venho fazendo há bastante tempo e, depois de ter assistido à dita entrevista, vi que afinal não sou a única a pensar dessa forma sobre os meus compatriotas:)

Bem-Visto:
Não queria nem teria tanto tempo para esperar. Será que dá para apressar um bocadito as coisas? :D

Bem Visto said...

Por mim, acho que estás safa... Agora, já só te resta convencer aí mais 9.999.998 de pessoas...:-)

Blondie said...

xiiii... que trabalheira!!!
Pelo sim pelo não vou comprar um megafone para facilitar o processo:))

the visitor said...

Concordar em uníssono com a auto-comiseração e auto-critica do grupo nativo também podia ser mais uma característica portuguesa, no entanto não é , tal como muitos dos aspectos descritos neste post, não é portuguesa, faz parte da natureza humana. Apenas há algumas sociedades mais controladas por aspectos sociológicos do que noutras e acima de tudo há umas que disfarçam tiques considerados negativos de uma forma mais sofisticada... Mais um caso de “ a forma é tudo” ou “ não interessa o que se faz, mas como se faz” . Continuemos ...

Blondie said...

Sem dúvida... e nós não fazemos nada para disfarçar esses "tiques", pelo contrário, gritamos aos quatro ventos :))
Benvindo novamente!! ;)